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Medina de Fez: curtumes, madraças, souks e a arte de se perder

Publicado em outubro de 2026 · 8 min de leitura

Tanques de tingimento do curtume Chouara na medina de Fez vistos de um terraço, com curtidores a trabalhar

A medina de Fez não é um cenário. Em Fez el-Bali, a cidade velha amuralhada, as pessoas vivem, estudam, rezam e trabalham, e quase todas as mercadorias continuam a circular no dorso de mulas. Este guia é para quem tem um ou dois dias em Fez antes ou depois do Sara: como ver os curtumes e as madraças, fazer compras nos souks sem stress e perceber se vale a pena ter um guia.

Resposta rápida

Reserve um dia inteiro para a medina de Fez com um guia oficial e, se possível, um segundo dia para explorar por conta própria. Comece cedo pelo curtume Chouara, visite as madraças Bou Inania e Al-Attarine e percorra os bairros de artesãos à volta da praça Seffarine. De Fez, as dunas de Merzouga ficam a cerca de 470 km: um dia inteiro de estrada, e os nossos tours partem por volta das 8h00.

O que é Fez el-Bali

Fez nasceu há mais de 1200 anos, com a dinastia idríssida, e Fez el-Bali ("a Fez velha") é a cidade amuralhada que cresceu a partir desse primeiro povoado junto ao rio. É Património Mundial da UNESCO desde 1981. Dentro das muralhas há milhares de vielas, muitas tão estreitas que se tocam as duas paredes de braços abertos, cheias de mesquitas, fontes, oficinas, fornos de pão e casas de família atrás de portas sem qualquer letreiro.

Os carros não entram na maior parte da medina. A carga chega em mulas, burros ou carrinhos de mão. Quando se ouve "Balak!" nas costas, quer dizer "cuidado": encoste-se à parede e deixe passar. Ao lado da cidade velha fica Fez el-Jdid ("a Fez nova"), construída no século XIII em redor do palácio real, com o antigo bairro judeu, o Mellah, e as suas casas de varandas de madeira.

Como se orientar (e perder-se de propósito)

Duas ruas principais concentram quase todo o movimento: Talaa Kebira e Talaa Seghira. Ambas começam perto de Bab Bou Jeloud, a porta de azulejos azuis no topo da medina, e descem até à mesquita Qarawiyyin, no coração da cidade. Essa inclinação é a bússola: a descer, vai-se para o centro; a subir, volta-se às portas e aos táxis.

Os mapas do telemóvel ajudam, mas o GPS falha muitas vezes nas passagens estreitas e cobertas. Guarde a localização do riad antes de sair, aponte o nome da porta mais próxima e, em caso de dúvida, pergunte a um lojista e não a quem espera numa esquina. Os becos sem saída são normais. Perder-se um pouco faz parte da viagem: deixe uma tarde livre para isso.

Burro carregado numa ruela estreita da medina

O curtume Chouara

O Chouara é o maior e mais conhecido dos curtumes de Fez: um campo de cubas redondas de pedra onde as peles são demolhadas, raspadas e tingidas quase como há séculos. Não se entra no curtume propriamente dito; vê-se a partir dos terraços das lojas de couro à volta, a que se chega por escadas estreitas. À entrada costumam oferecer um raminho de hortelã para pôr debaixo do nariz, porque o cheiro, da cal e dos excrementos de pombo usados para amaciar as peles, é intenso.

A melhor altura é de manhã, quando os curtidores estão nas cubas e a luz entra nos tanques. Subir ao terraço não tem preço fixo, mas a loja espera que se veja a sua oferta de malas, casacos e babuchas. Vale a pena olhar com atenção, comprar só se apetecer e deixar uma pequena gorjeta depois de uma visita longa sem compras. Se alguém na rua insistir que o curtume "hoje está fechado" e se oferecer para mostrar outro, siga em frente.

Madraças, a Qarawiyyin e outros pontos essenciais

Em Marrocos, quase todas as mesquitas e santuários estão fechados a não muçulmanos, por isso as madraças, as escolas corânicas, são a oportunidade de ver a arquitetura religiosa por dentro. A madraça Bou Inania, no alto da Talaa Kebira, e a mais pequena Al-Attarine, junto ao mercado das especiarias, foram ambas construídas no século XIV pelos sultões merínidas. Repare nas camadas: zellige em baixo, estuque esculpido por cima e madeira de cedro sob o telhado, tudo à volta de um pátio com fonte.

A Qarawiyyin, fundada em 859 por Fátima al-Fihri, é muitas vezes apontada como a universidade mais antiga ainda em funcionamento. Não é possível entrar, mas pelas portas abertas veem-se as arcadas brancas e o pátio. Perto dali, a zawiya de Moulay Idris II, fundador da cidade, recebe um vaivém constante de peregrinos. Respeite as traves de madeira atravessadas em algumas vielas: marcam até onde podem ir os não muçulmanos.

Azulejos zellige e estuque esculpido numa madraça da medina de Fez

Souks e bairros de artesãos

A medina está organizada por ofícios, como há séculos. Na praça Seffarine ouvem-se os caldeireiros antes de os ver, a martelar bandejas e caldeirões ao ar livre. Junto à fonte Nejjarine, com o seu arco de azulejos, os carpinteiros trabalham o cedro. Mais à frente ficam a rua dos tintureiros, os tecelões, os fabricantes de babuchas e o souk da hena, uma pracinha sossegada à sombra de uma árvore grande.

  • Regatear com um sorriso. Pergunte o preço, ofereça o que lhe parece justo e feche a meio caminho. Sem acordo, despeça-se com simpatia.
  • Comprar a quem faz. Nos bairros de artesãos é frequente ver a peça a nascer e comprá-la às mesmas mãos.
  • Levar notas pequenas e moedas. Lojas, bancas de sumo e padarias da medina aceitam quase sempre só dinheiro.
  • A sexta-feira é mais calma. Muitas lojas fecham por volta da oração do meio-dia: bom dia para a arquitetura, menos para compras.
Artesão marroquino a trabalhar em Marraquexe

Porque compensa um guia local na medina de Fez

É possível explorar Fez sozinho, e no segundo dia é isso mesmo que se recomenda. Mas numa primeira visita, um guia oficial muda o dia: vê-se o essencial num percurso lógico em vez de andar às voltas, conhecem-se as histórias por trás das portas fechadas e os "guias" improvisados que abordam os visitantes deixam de insistir. Os guias oficiais têm cartão de identificação; peça ao riad que reserve um para meio dia ou dia inteiro e deixe claro desde o início que as paragens em lojas são opcionais.

Sem guia, haverá ofertas de ajuda. "Por aqui está fechado", "o curtume é para ali" ou "hoje há uma festa especial" são frases clássicas. Um "la, shukran" (não, obrigado) tranquilo e um passo decidido chegam. As crianças que indicam o caminho esperam uma moeda.

Quanto tempo ficar em Fez

Um dia inteiro com guia cobre o essencial: curtumes, madraças, as portas da Qarawiyyin e os bairros de artesãos. Com dois dias juntam-se Fez el-Jdid, as portas douradas do palácio real e o Mellah, um pôr do sol nas colinas sobre a cidade e uma tarde a passear sem plano. Para quem parte para o deserto na manhã seguinte, o ideal é chegar na véspera ao fim do dia e começar a viagem descansado.

Conselhos práticos

  • Calçado com boa aderência. As vielas são íngremes em alguns troços, irregulares e escorregadias com chuva.
  • Ombros e joelhos tapados. É uma cidade religiosa e conservadora; roupa leve e larga é respeitosa e mais fresca.
  • Pedir antes de fotografar pessoas. Alguns artesãos dizem que não ou esperam uma gorjeta.
  • Ter em conta a estação. No verão, as tardes em Fez são quentes: o melhor é sair cedo e ao fim do dia. No inverno, as noites são frias e húmidas, e os riads podem ser frescos.
Estuque e zellige em torno de uma fonte numa madraça marroquina

Partir para o deserto a partir de Fez

Fez é a porta clássica mais próxima do Sara. A estrada até Merzouga, com cerca de 470 km, sobe por Ifrane e pela floresta de cedros de Azrou, onde vivem os macacos-de-berbéria, atravessa o Médio Atlas em Midelt e desce pelas gargantas do Ziz até Errachidia e Erfoud. É um dia inteiro, que termina com o passeio de camelo (cerca de 1 hora) até ao acampamento. O nosso guia de Merzouga explica o que espera do outro lado.

A recolha é por volta das 8h00. Os carros não entram nas vielas, por isso, se o riad ficar no meio da medina, o encontro é na porta mais próxima: indique-a na reserva. Escolha a excursão ao deserto a partir de Fez em 2 dias para regressar a Fez, o tour de Fez a Marraquexe pelo deserto para atravessar o país em 3 dias, ou o tour de 3 dias ao deserto a partir de Fez para duas noites junto às dunas. Jantares e pequenos-almoços estão incluídos, e pode escolher entre acampamento standard (eletricidade, casas de banho partilhadas) ou de luxo, com casa de banho privativa, água quente, tomadas para carregar e Wi-Fi. Para saber como é a noite, leia dormir no deserto em Marrocos, ou veja todos os nossos tours.

Medina de Fez: perguntas frequentes

É seguro explorar a medina de Fez sem guia?

Em geral sim, de dia e nas vielas movimentadas. Os incómodos habituais são as ofertas insistentes de ajuda e o risco de se perder. Mantenha os objetos de valor perto de si, evite vielas vazias à noite e consulte os conselhos de viagem atuais do seu país antes de partir.

Os não muçulmanos podem entrar na mesquita Qarawiyyin?

Na sala de oração, não. É possível espreitar pelas portas abertas a partir da viela. As madraças Bou Inania e Al-Attarine são os sítios certos para ver esta arquitetura de perto.

Qual é a melhor altura do dia para ver os curtumes?

De manhã. Há mais atividade nas cubas, a luz chega aos tanques e o cheiro é menos intenso do que no calor da tarde.

É possível partir para o Sara a partir de um riad na medina?

Sim. A recolha é por volta das 8h00 e, como os carros não entram nas vielas, o encontro é na porta mais próxima do riad.

Fez ou Marraquexe: de onde é melhor partir para o deserto?

Fez fica mais perto de Merzouga (cerca de 470 km contra cerca de 560 km), por isso as dunas ficam a um dia e não a dois. A partir de Marraquexe passa-se pelo Alto Atlas, por Aït Ben Haddou e pelo vale do Dades. Muitos viajantes juntam as duas cidades, atravessando o deserto de uma para a outra.

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